Como garantir objetividade em relatórios psicológicos (com exemplos)
Objetividade em um relatório psicológico significa descrever comportamentos, falas e resultados observados — e não emitir rótulos ou opiniões pessoais. Na prática, você troca adjetivos que julgam ("paciente imaturo", "família desestruturada") por descrições verificáveis do que foi observado, sempre vinculadas à demanda que motivou o documento e sem afirmar nada além do que foi efetivamente avaliado, como exige a Resolução CFP nº 06/2019.
O que a Resolução CFP 06/2019 entende por objetividade
A Resolução CFP nº 06/2019 estabelece que todo documento escrito produzido pela(o) psicóloga(o) deve ter fundamentação técnico-científica e obedecer aos princípios de clareza, coerência e objetividade. Ser objetivo, nesse contexto, é registrar o que foi efetivamente observado, relatado e mensurado durante o processo — não a impressão pessoal de quem escreve.
A objetividade percorre todos os documentos previstos na resolução (declaração, atestado, relatório/laudo e parecer). Vale lembrar a estrutura: o relatório e o laudo psicológico seguem cinco seções (identificação, descrição da demanda, procedimento, análise e conclusão), enquanto o parecer psicológico tem quatro partes e responde a uma questão-problema focal. Em qualquer um deles, a análise só é sólida quando cada afirmação pode ser rastreada até um dado concreto.
Descreva comportamentos observáveis, não rótulos
O erro mais comum contra a objetividade é o rótulo: adjetivos que classificam a pessoa em vez de descrever o que ela fez. "Agressivo", "imaturo", "manipulador", "desestruturado" são julgamentos — dizem mais sobre a interpretação de quem escreve do que sobre fatos verificáveis. A recomendação técnica é substituir o rótulo pela descrição do comportamento observável: o que foi visto, ouvido ou medido, quando e em que contexto.
Duas práticas ajudam a sustentar esse padrão:
- Atribua a fonte de cada informação. Diferencie o que você observou diretamente, o que o avaliando relatou e o que consta em documentos de terceiros ("segundo a escola...").
- Não faça diagnóstico médico. A(o) psicóloga(o) realiza avaliação psicológica; nomear doenças ("quadro depressivo", "TDAH") extrapola a atribuição profissional. Descreva os sinais e, quando indicado, encaminhe para avaliação médica.
Trecho a evitar: "João é um adolescente rebelde, desmotivado e com baixa tolerância à frustração."
Trecho recomendado: "Nas quatro sessões, João chegou no horário e participou das atividades propostas. Ao errar em duas tarefas de raciocínio, interrompeu a atividade e disse 'não vou fazer mais'. Verbalizou desinteresse pela escola e relatou faltar às aulas cerca de duas vezes por semana."
(Personagem fictício, criado para fins didáticos.)
Ligue cada afirmação à demanda — e não afirme além do avaliado
Cada frase do documento precisa servir à demanda que o originou. Se o relatório foi solicitado para orientar um plano escolar, informações sobre a vida conjugal dos pais raramente cabem — e podem violar o sigilo de terceiros. A Resolução 06/2019 orienta que a análise e a conclusão respondam ao que foi pedido, com base nos procedimentos efetivamente utilizados.
Daí decorre a segunda regra de ouro: não afirme além do que você avaliou. Se um instrumento não foi aplicado, a conclusão não pode se apoiar nele. Se você atendeu a criança, mas não os responsáveis, não descreva a dinâmica familiar como fato. O Código de Ética Profissional reforça esse cuidado ao exigir responsabilidade e veracidade, evitando documentos que induzam a erro ou causem dano.
Antes e depois: reescrevendo trechos subjetivos
A forma mais rápida de calibrar o texto é comparar trechos. À esquerda, formulações que julgam ou extrapolam; à direita, a mesma ideia reescrita de modo descritivo e rastreável. Todos os exemplos são fictícios.
| Evite — subjetivo / juízo de valor | Prefira — objetivo / descritivo |
|---|---|
| "A criança é agressiva e mal-educada." | "Em duas das três sessões, a criança empurrou colegas ao disputar brinquedos e, quando contrariada, jogou objetos no chão." |
| "A mãe é superprotetora e sufocante." | "A responsável relatou acompanhar o filho em todas as atividades e, na sessão, respondeu às perguntas que haviam sido dirigidas à criança." |
| "O avaliando é imaturo e sem noção da realidade." | "Ao descrever seus planos, o avaliando não mencionou prazos nem recursos necessários; não foram aplicados instrumentos específicos de juízo crítico." |
| "Trata-se de um quadro depressivo." (diagnóstico médico) | "O avaliando relatou tristeza na maior parte dos dias, perda de interesse e alterações de sono nas últimas semanas; recomenda-se avaliação médica." |
| "Ele mente e manipula." | "Houve divergência entre o relato do avaliando e os documentos apresentados quanto às datas; a divergência é registrada sem inferência sobre intenção." |
Perceba o padrão: a versão recomendada troca o adjetivo por verbo de ação + contexto + frequência e sinaliza quando algo não foi avaliado. Isso protege tanto o rigor técnico quanto a pessoa avaliada.
Checklist de objetividade antes de assinar
Antes de assinar, revise o documento com estas perguntas:
- Cada conclusão pode ser rastreada até um dado concreto (observação, relato atribuído ou resultado de instrumento)?
- Substituí rótulos e adjetivos de julgamento por descrições de comportamento observável?
- Toda afirmação responde à demanda? Removi o que é irrelevante ou expõe terceiros sem necessidade?
- Deixei claro o que não foi avaliado, evitando conclusões sobre isso?
- Evitei nomear doenças ou diagnósticos médicos, encaminhando quando pertinente?
- A linguagem é acessível a quem vai ler, sem jargão desnecessário?
Um bom teste final: se outra(o) colega lesse apenas os fatos que você registrou, chegaria a uma leitura semelhante? Se sim, o texto está objetivo. Ferramentas de apoio, como o gerador de relatório psicológico, ajudam a organizar a estrutura, mas a responsabilidade técnica e a revisão final são sempre suas.
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Perguntas frequentes
Fontes oficiais
- Resolução CFP nº 06/2019 (comentada)
- Código de Ética Profissional do Psicólogo
- Resolução CFP 001/2009 (registro documental e guarda de prontuário)
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Conteúdo educativo elaborado a partir das publicações oficiais do CFP e da legislação vigente, com as fontes listadas acima. Não substitui orientação do seu CRP, de contador ou de advogado no caso concreto. Como produzimos e revisamos.